Por que o Brasil importa 80% de seus fertilizantes?

  • Nosso Agro
  • 4 de Novembro de 2020
  • 7 min

O ano de 2019 terá bateu o recorde de vendas da conhecida fórmula NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), com 36,2 milhões de toneladas usadas na produção agrícola brasileira.

A demanda crescente pelos três principais macronutrientes aumenta também a dependência do mercado externo, uma vez que 83% da matéria-prima dos fertilizantes é importada — para potássio, as importações chegam a 97%.

O ano de 2019 terá bateu o recorde de vendas da conhecida fórmula NPK (nitrogênio, fósforo e potássio), com 36,2 milhões de toneladas usadas na produção agrícola brasileira. A demanda crescente pelos três principais macronutrientes aumenta também a dependência do mercado externo, uma vez que 83% da matéria-prima dos fertilizantes é importada — para potássio, as importações chegam a 97%.

Mas comprar de outros países é necessariamente ruim? Na avaliação de Vinícius Benites, da Embrapa Solos, não. Segundo o agrônomo, o Brasil até tem potencial para tornar-se autossuficiente em fósforo e potássio, mas o custo de extração desses minerais inviabiliza o processo. “É muito mais barato trazer potássio da Ásia e fosfato da África do que explorá-los aqui. Como se trata de um mercado globalizado, não interessa onde é feito, importa o preço em dólar para todos. Os Estados Unidos compram muito fósforo do Marrocos, apesar de contarem com reservas próprias. Essas reservas estão sendo poupadas por uma questão estratégica”, afirma.

O Brasil é o quarto maior mercado de fertilizantes, atrás apenas de China, Índia e Estados Unidos. A AMA Brasil (Associação dos Misturadores de Adubo do Brasil) estima que o uso de adubos químicos nas lavouras do país cresceu 450% nas últimas três décadas, enquanto a média mundial ficou em 50%. “Aqui, a despesa com fertilizante é uma das mais relevantes. Fala-se em algo em torno de 30% a 40% do custo de produção [varia conforme a qualidade do solo]. É algo muito característico nosso. A Argentina, por exemplo, simplesmente não usa.”

E por que a produção do Brasil está tão atrelada ao uso de fertilizantes? Benites explica que o solo brasileiro, diferente do encontrado no hemisfério norte, é pobre em nutrientes. “Nosso agronegócio conta com outras vantagens competitivas, como clima favorável, chuva e terras bem drenadas, mas o solo carece de nutrientes, é como o da Austrália.”

O cerrado brasileiro, onde está concentrada a maior produção de commodities, nem sempre foi considerado um território agricultável. O solo intemperizado inviabilizou por muitos anos a produção de grãos. “Até os anos 70, não se plantava nada ali. Foi nessa época que muitas pesquisas surgiram, técnicas foram aprimoradas e os produtores compraram a ideia, transformado a região no que é hoje.”

Independência: o debate. Benites lembra que em 2010, após a crise econômica, a autossuficiência se transformou em uma pauta do governo. “O preço dos fertilizantes é casado com o das commodities, então naquela época uma luz amarela piscou aqui. O Ministério de Minas e Energia tinha vários projetos, mas nenhum vingou, porque os valores dos nutrientes voltaram a patamares de normalidade.”

Com a mudança de posicionamento, a reserva de potássio do Amazonas, considerada uma das maiores do mundo, continua intocada. “Seria um custo extraordinário, estamos falando de uma região entre rios, sem logística alguma. Além, é claro, dos impactos ambientais e sociais que precisariam ser estudados”, opina.
A disponibilidade de NPK está, obviamente, associada a recursos naturais. Mas existem outros obstáculos internos que dificultam o desenvolvimento de uma indústria local. O setor reclama da diferença no tratamento tributário: sobre a produção nacional incide ICMS, o que reduz a competitividade em relação aos fertilizantes que chegam de outros países.

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Soluções. Na opinião de Benites, a dependência das importações não será resolvida no curto ou médio prazo. Nem precisa. “Eu apostaria nas boas práticas, porque ainda há muito desperdício, sobretudo nas culturas com margens maiores de lucro. As commodities, que têm um retorno menor, acabam fazendo um uso mais assertivo dos fertilizantes, já que o custo para a produção é alto.”

Ele também fala da necessidade de reaproveitar os nutrientes dos resíduos agrícolas e urbanos. “A soja se transforma em ração para aves e suínos. Logo, parte dos nutrientes que foram empregados no plantio acaba indo para os dejetos desses animais.”

A conta do produtor

Para saber se o preço do fertilizante está caro ou não, os produtores usam a seguinte relação: quantos sacas de soja compram uma tonelada de fertilizantes? O valor de refência é 20. Acima disso está caro. Abaixo, está dentro do esperado. Isso porque tanto o preço dos fertilizantes quanto o das commodities estão indexados ao dólar. Às vezes, nominalmente o preço está alto, mas o importante é a relação de troca.

Produção interna versus importação e principais origens das compras brasileiras

Principais países produtores

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